Crónica do IV Dia da Galiza Combatente em Cela Nova

Os actos iniciavam-se com a colocacom simbólica de umha placa na rua que leva o seu nome e que fora retirada sem sabermos o motivo. É de destacar a importante presenca de familiares e amig@s do José Velo, desejos@s de lhe render a homenagem que umha pessoa como ele merescia e que noutras ocasioes as longas maos da direita local tinham impedido sob acusacoes de terrorismos e outras úteis para o afogamento da memória histórica.
Logo depois da colocacom da placa @s assistentes dirigiam-se ao pé do busto dedicado a Curros Henriques. Neste lugar o companheiro Miguel Garcia dirigia-se ao público com umha intervencom que reproduzimos íntegra a continuacom. O acto finalizava com a entonacom do hino nacional e a queima de umha bandeira espanhola.
Seguindo com os actos de difusom da figura de Pepe Velo, celebrava-se o dia 11, no instituto de Cela Nova, umha palestra sobre a sua figura com a assistencia de 60 alunas e alunos. Por outra banda o concelho de Cela Nova ainda nom contestou ao pedido de permisom para a realizacom de um mural cuja realizacom fora impedida cautelarmente pola Polícia Municipal o passado dia 8.
Nas próximas horas disponibilizaremos na seccom de fotografias a crónica gráfica do acto. Eis o discurso:
"Companheiras e companheiros:
Quantas vezes se tem insistido no papel que a literatura jogou, e para alguns joga, na defesa e na construcom da identidade nacional galega?
Há nisto umha parte de razom: valorosíssimas páginas escritas na nossa língua tenhem servido, desde o Ressurgimento, para expressar, difundir e incitar a dignidade galega e popular. É justo reconhecer que desde a nossa literatura se tenhem cavado valorosas trincheiras.
Mas também há, na identificacom recorrente da nossa História Nacional com as biografias e bibliografias literárias, umha trampa tam perigosa como intencionada. Em demasiadas ocasions, a reivindicacom das Letras Galegas tem servido e serve para ocultar o valor da luita política e do compromisso militante. O culturalismo, um verme perigoso surgido das próprias fileiras do nacionalismo mais covarde, tem contribuido para erigir e institucionalizar, na homenagem a escritoras e escritores, ou só à faceta artística e literária de quem f'rom militantes integrais, um modelo de compromisso com o país afastado de arriscadas implicacons políticas e duros compromissos práticos. O pinheirismo proclamou a substituicom da ética revolucionária pola estética poética, desenhando um galeguismo de elites, rosto amável e perfil inócuo. E com ele quijo sepultar a realidade dum país que nom se construiu sobre recursos estilísticos, senom sobre o compromisso generoso, o esforco abnegado, a entrega patriótica e o activismo revolucionário de milhares de filhas e filhos do povo que escolhérom o difícil caminho da LUITA com maiúsculas. Pessoas humildes e valentes, boas e generosas, que marchárom da casa, que se botárom ao monte, que embarcárom cara o exílio, que sofrírom a prisom e mesmo a morte, precisamente por estarem convencidas de que Galiza nom é um simples género literário. Homens e mulheres conscientes de que a revolucom galega, que partilha a beleca da poesia, a intensidade da novela, a dureza da tragédia e a complexidade do ensaio, nom se pode desenhar nem praticar desde escritórios de terciopelo. Nom é por acaso que alguns deles denominassem o seu combate como Nova Poesia Galega. Este é o seu 17 de Maio: na sua honra celebramos hoje o Dia da Galiza Combatente.
Hoje encontramo-nos na Cela Nova de Curros Enriquez e o Celso Emílio poeta, mas também na que impulsionou a avanguarda arredista da Federacom de Mocidades Nacionalistas, na que pariu os centos de militantes de esquerda que combatérom e sofrirom no interior destes mesmos muros, na Cela Nova do compromisso militante, a ánsia de accom imparável e a coerencia exemplar de JOSÉ VELO MOSQUEIRA.
Ainda é hoje o dia em que pronunciar este nome fai abalar os alicerces da Cela Nova mais escura, mais ruim, mais indigna. JOSÉ VELO MOSQUEIRA. A celebracom desta homenagem à sua figura e à sua história política nom deixou impassíveis nem os filhos do franquismo que governam no Concelho, nem tampouco à Guarda Civil, que sem ser convocada assiste vigiante ao transcurso deste acto. Os "bárbaros tricorniados", como Pepe Velo os chamava. Há poucos dias contava-nos umha familiar sua como, depois da sua morte, ainda ninguém aceitou oficiar umha misa no recordo de José Velo Mosqueira; ou como se estendeu a polémica quando o Concelho lhe dedicou umha rua "a um terrorista", cujo nome vimos agora de restaurar. E porém, o seu temor e a sua preocupacom é a melhor homenagem que se pode rendir hoje a um homem que viviu e morreu para ferir o poder, para combater a injustica, para ofender o imperialismo espanhol em nome da democracia e a liberdade nacional. Para eles foi e é um terrorista, porque o sua consciencia, a sua coerencia, a sua decisom e sobretodo o seu exemplo, ainda causa terror entre caciques e fascistas. Para nós foi um herói, PORQUE ESSE É O NOME QUE MERECE QUEM DEDICOU A SUA VIDA AO BEM E À LIBERDADE DESTE POVO, QUEM EMPUNHOU AS ARMAS PARA RECUPERAR O QUE POLA FORÇA DAS ARMAS NOS FOI ARREBATADO.
Velo nasceu nesta vila num dia de 1916. Filho dumha família acomodada e conservadora, aginha ligou com o espírito político da sua terra e do seu tempo. Em 1932, com só 16 anos de idade funda, com Celso Emilio Ferreiro entre outros, a Mocidade Galeguista de Cela Nova. Desde a sua militáncia juvenil, José Velo Mosqueira dá mostras do que será umha constante e umha característica da sua biografia política: as suas conviccons nacionalistas e o seu afám por traduzi-las em praxe rebassam os moldes e as ortodóxias das estruturas do seu tempo, levando-o primeiro a enfrentar-se a elas, e finalmente a apostar pola construcom de outras novas. No seio das Mocidades Galeguistas, Velo é um dos militantes mais destacados dumha comarca e dumha linha que se caracterizam por um independentismo explícito e orgulhoso, e umha ánsia imparável de accom. Ao próprio tempo, é um organizador incansável, primeiro Secretário Geral da Federacom de Mocidades, e um orador sobresaliente: artífice daquele acto que, em Outubro de 1935, trouxo a Cela Nova 4000 jovens nacionalistas, escuitar as palavras dum José Velo que clamava pola accom directa, pola separacom de Espanha e pola ruptura coa ortodóxia do Partido Galeguista.
Para a maioria das galegas e dos galegos, e também para o nacionalismo da época, 1936 supujo umha ruptura. Velo, porém, continuou e profundou no franquismo o seu compromisso de luitador incansável. Nom digo que nom sofresse o trauma e o golpe brutal do levantamento fascista: sofreu-no, de feito, nas próprias carnes, e conheceu a clandestinidade, o cárcere, a tortura e o exílio, e sobreviviu à repressom apenas gracas à enorme influencia da sua família. Mas isto nom o levou a renunciar das suas ideias nem do seu projecto vital militante. Muito polo contrário, fortaleceu-no e radicalizou-no. Mentres Vicente Risco, Álvaro das Casas ou Álvaro Cunqueiro aderiam o fascismo para salvar o pelejo, José Velo Mosqueira foi um dos únicos nacionalistas em aderir a luita guerrilheira.
E logo chegou o DRIL, o Directório Revolucionário Ibérico de Libertacom. A primeira organizacom armada que defendeu a causa nacional galega e que, com o sequestro do Santa Maria, a pujo na cena política internacional. Impulsionada, é certo, por um José Velo que renunciou ao independentismo primando a luita antifascista, e aderindo, desde o exílio latino-americano, o federalismo clássico de Castelao e o nacionalismo maioritário. Mas sem esquecer por um instante a causa da libertacom nacional.
Junto a galegos, portugueses e outros revolucionários do estado, Velo empunhou as armas contra Franco e Salazar, mas também contra a esquerda covarde e reformista que clamava pola "reconciliacom nacional", e contra o galeguismo vergonhento que renunciava à luita política e se refugiava no culturalismo e na claudicacom. Quantas vezes a luita tem de ser travada nom só para golpear o inimigo, mas também para desemascarar a quem agacha detrás da literatura o seu medo e a sua incapacidade, e quando digo "literatura" refiro-me também à literatura política, SI, aos panfletos e às consignas incendiárias que pretendem substituir com adjectivos a accom que nom há, e que nom se quer que haja. QUANTAS VEZES, companheiras e companheiros, A ACÇOM DIRECTA NOM Só SERVE PARA BATER NO INIMIGO, MAS TAMBÉM NAS NOSSAS PRóPRIAS CONSCIÊNCIAS E NOS NOSSOS PRóPRIOS MEDOS, ENSINANDO COM FACTOS QUE A POSSIBILIDADE DE LUITAR É REAL. E dizemos isto hoje, a dous dias de que em Vigo, mocos e mocas cargados de valor e dignidade nos tenham ensinado a todas e todos como é que se deve responder às campanhas de recrutamento do exército espanhol!!
O DRIL nom só foi umha iniciativa valiosa polo que tivo de genuína, de heterodoxa e de original. Foi sobretodo, na altura de 1960, a primeira organizacom que na Europa mostrava o caminho a seguir para enfrentar os Estados capitalistas modernos dumha óptica revolucionára e de libertacom nacional. Esta iniciativa pioneira, ideada e dirigida politicamente por um galego, adiantou e demonstrou na prática o papel pedagógico fundamental que a luita decidida desenvolve independentemente dos seus resultados imediatos:
"Aquelas explosons -dixo Velo- eram salvas de palmas para que os nossos povos, ao ver como era burlado o terrorífico aparelho repressivo, cobrassem confianca".
É possível que o próprio José Velo nom for completamente consciente da importáncia e da repercussom que na história política do último terco do século XX tivérom as suas conceicons e o seu exemplo. Após o desenlace do sequestro do Santa Maria, o DRIL foi dissolto, e Velo ficou politicamente só, no exílio brasileiro, aproveitando a rádio e diferentes iniciativas editoriais para seguir trabalhando, na medida das suas possibilidades e das suas circunstáncias, polo que sempre trabalhou. Morreu longe da Terra em 1972. Nom o fijo como um fracassado. Com a sua actividade incansável e o seu compromisso de toda umha vida, conquistou algo de valor incalculável para a causa da revolucom galega: um lugar exemplar na história do combate e da dignidade colectiva do nosso povo. Um referente incontestável de luita e de compromisso, cujo poder de atraccom e de motivacom sigue surgindo efecto aqui, na sua vila natal, entre a mocidade independentista galega, 30 anos depois. ESTE ACTO DE HOJE NOM É UM FUNERAL LAICO A UM HOME DO PASSADO: E O ENÉSIMO ACTO REVOLUCIONÁRIO INSPIRADO POR JOSÉ VELO MOSQUEIRA.
A luita dum combatente nom caduca enquanto nom caducarem as causas que a motivárom. Por cem vezes repetido, aquele conhecido refrám que di que "a morte dum revolucionário nom se chora" senom que se "colhe o seu fusil e o seu exemplo", nom deixa de perder vigencia. O Dia da Galiza Combatente tem de servir, por suposto, para homenagear e revivir o exemplo da luita de Lola Castro e de José Vilar, mas também para resgatar do esquecimento compromissos e trajectórias como as de José Velo. Hoje que desde a mocidade independentista temos que enfrentar o veneno sociológico do consumismo, do individualismo, da falta de consciencia social, da alienacom nacional mais absoluta, ou no melhor dos casos, militáncias a médias, compromissos fugazes e consciencias passageiras, o guieiro ético e prático, moral e político que represente a luita de toda umha de vida de José Velo, resulta mais imprescindível que nunca.
Remato, companheiras e companheiras, lendo palavras pronunciadas polo nosso homem como responsável político do sequestro do Santa Maria, rebaptizado polo comando revolucionário como Santa Liberdade. A sua actualidade é pasmosa; a sua forca conmovedora. Som estas:
"Mas, que foi do Alexandre, de Ángelo Casal, de Vítor Casas...? que foi de Castelao...? Será que lhes tocou a morte podre...? Afinal, que foi do galeguismo?
Em certas artes, o abstraccionismo ainda é válido, mas em política, em patriotismo, nem sequer é decorativo, também apodreceu a galeguidade?. Nom.
Os sonhos de justica que moverom a vontade de aqueles mártires estám a ponto de serem realizados. Ainda a gente da Galiza emigra. Ainda é esmagada a nossa língua, a nossa cultura e a nossa capacidade de autodeterminacom. Ainda governa Cláudio, ainda Soyano priva... Será que já a Galiza é ceive? Será que nom ficam filhos e filhas capazes de agasalhá-la? Nom.
Ainda há reservas de honestidade, de decisom, de capacidade de accom fáustica. Ainda nos emociona Rosalia, nos comove Pondal, nos arrebata Curros. A mátria galega ainda nom tem pátria. Todos os bons e generosos de pé!"
Companheiras e companheiros: VIVA A GALIZA COMBATENTE!"







