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Galiza :: 13/10/2004

Crónica do IV Dia da Galiza Combatente em Cela Nova

Assembleia da Mocidade Independentista
Ã?s 13 horas do domingo 10 de Outubro davam comeco os actos convocados polo AMI com motivo do IV Dia da Galiza Combatente na vila de Cela Nova e dedicado ao que foi jovem independentista, luitador antifascista e combatente José Velo Mosqueira nado nesta vila.

Os actos iniciavam-se com a colocacom simbólica de umha placa na rua que leva o seu nome e que fora retirada sem sabermos o motivo. É de destacar a importante presenca de familiares e amig@s do José Velo, desejos@s de lhe render a homenagem que umha pessoa como ele merescia e que noutras ocasioes as longas maos da direita local tinham impedido sob acusacoes de terrorismos e outras úteis para o afogamento da memória histórica.

Logo depois da colocacom da placa @s assistentes dirigiam-se ao pé do busto dedicado a Curros Henriques. Neste lugar o companheiro Miguel Garcia dirigia-se ao público com umha intervencom que reproduzimos íntegra a continuacom. O acto finalizava com a entonacom do hino nacional e a queima de umha bandeira espanhola.

Seguindo com os actos de difusom da figura de Pepe Velo, celebrava-se o dia 11, no instituto de Cela Nova, umha palestra sobre a sua figura com a assistencia de 60 alunas e alunos. Por outra banda o concelho de Cela Nova ainda nom contestou ao pedido de permisom para a realizacom de um mural cuja realizacom fora impedida cautelarmente pola Polícia Municipal o passado dia 8.

Nas próximas horas disponibilizaremos na seccom de fotografias a crónica gráfica do acto. Eis o discurso:

"Companheiras e companheiros:

Quantas vezes se tem insistido no papel que a literatura jogou, e para alguns joga, na defesa e na construcom da identidade nacional galega?

Há nisto umha parte de razom: valorosíssimas páginas escritas na nossa língua tenhem servido, desde o Ressurgimento, para expressar, difundir e incitar a dignidade galega e popular. É justo reconhecer que desde a nossa literatura se tenhem cavado valorosas trincheiras.

Mas também há, na identificacom recorrente da nossa História Nacional com as biografias e bibliografias literárias, umha trampa tam perigosa como intencionada. Em demasiadas ocasions, a reivindicacom das Letras Galegas tem servido e serve para ocultar o valor da luita política e do compromisso militante. O culturalismo, um verme perigoso surgido das próprias fileiras do nacionalismo mais covarde, tem contribuido para erigir e institucionalizar, na homenagem a escritoras e escritores, ou só à faceta artística e literária de quem f'rom militantes integrais, um modelo de compromisso com o país afastado de arriscadas implicacons políticas e duros compromissos práticos. O pinheirismo proclamou a substituicom da ética revolucionária pola estética poética, desenhando um galeguismo de elites, rosto amável e perfil inócuo. E com ele quijo sepultar a realidade dum país que nom se construiu sobre recursos estilísticos, senom sobre o compromisso generoso, o esforco abnegado, a entrega patriótica e o activismo revolucionário de milhares de filhas e filhos do povo que escolhérom o difícil caminho da LUITA com maiúsculas. Pessoas humildes e valentes, boas e generosas, que marchárom da casa, que se botárom ao monte, que embarcárom cara o exílio, que sofrírom a prisom e mesmo a morte, precisamente por estarem convencidas de que Galiza nom é um simples género literário. Homens e mulheres conscientes de que a revolucom galega, que partilha a beleca da poesia, a intensidade da novela, a dureza da tragédia e a complexidade do ensaio, nom se pode desenhar nem praticar desde escritórios de terciopelo. Nom é por acaso que alguns deles denominassem o seu combate como Nova Poesia Galega. Este é o seu 17 de Maio: na sua honra celebramos hoje o Dia da Galiza Combatente.

Hoje encontramo-nos na Cela Nova de Curros Enriquez e o Celso Emílio poeta, mas também na que impulsionou a avanguarda arredista da Federacom de Mocidades Nacionalistas, na que pariu os centos de militantes de esquerda que combatérom e sofrirom no interior destes mesmos muros, na Cela Nova do compromisso militante, a ánsia de accom imparável e a coerencia exemplar de JOSÉ VELO MOSQUEIRA.

Ainda é hoje o dia em que pronunciar este nome fai abalar os alicerces da Cela Nova mais escura, mais ruim, mais indigna. JOSÉ VELO MOSQUEIRA. A celebracom desta homenagem à sua figura e à sua história política nom deixou impassíveis nem os filhos do franquismo que governam no Concelho, nem tampouco à Guarda Civil, que sem ser convocada assiste vigiante ao transcurso deste acto. Os "bárbaros tricorniados", como Pepe Velo os chamava. Há poucos dias contava-nos umha familiar sua como, depois da sua morte, ainda ninguém aceitou oficiar umha misa no recordo de José Velo Mosqueira; ou como se estendeu a polémica quando o Concelho lhe dedicou umha rua "a um terrorista", cujo nome vimos agora de restaurar. E porém, o seu temor e a sua preocupacom é a melhor homenagem que se pode rendir hoje a um homem que viviu e morreu para ferir o poder, para combater a injustica, para ofender o imperialismo espanhol em nome da democracia e a liberdade nacional. Para eles foi e é um terrorista, porque o sua consciencia, a sua coerencia, a sua decisom e sobretodo o seu exemplo, ainda causa terror entre caciques e fascistas. Para nós foi um herói, PORQUE ESSE É O NOME QUE MERECE QUEM DEDICOU A SUA VIDA AO BEM E À LIBERDADE DESTE POVO, QUEM EMPUNHOU AS ARMAS PARA RECUPERAR O QUE POLA FORÇA DAS ARMAS NOS FOI ARREBATADO.

Velo nasceu nesta vila num dia de 1916. Filho dumha família acomodada e conservadora, aginha ligou com o espírito político da sua terra e do seu tempo. Em 1932, com só 16 anos de idade funda, com Celso Emilio Ferreiro entre outros, a Mocidade Galeguista de Cela Nova. Desde a sua militáncia juvenil, José Velo Mosqueira dá mostras do que será umha constante e umha característica da sua biografia política: as suas conviccons nacionalistas e o seu afám por traduzi-las em praxe rebassam os moldes e as ortodóxias das estruturas do seu tempo, levando-o primeiro a enfrentar-se a elas, e finalmente a apostar pola construcom de outras novas. No seio das Mocidades Galeguistas, Velo é um dos militantes mais destacados dumha comarca e dumha linha que se caracterizam por um independentismo explícito e orgulhoso, e umha ánsia imparável de accom. Ao próprio tempo, é um organizador incansável, primeiro Secretário Geral da Federacom de Mocidades, e um orador sobresaliente: artífice daquele acto que, em Outubro de 1935, trouxo a Cela Nova 4000 jovens nacionalistas, escuitar as palavras dum José Velo que clamava pola accom directa, pola separacom de Espanha e pola ruptura coa ortodóxia do Partido Galeguista.

Para a maioria das galegas e dos galegos, e também para o nacionalismo da época, 1936 supujo umha ruptura. Velo, porém, continuou e profundou no franquismo o seu compromisso de luitador incansável. Nom digo que nom sofresse o trauma e o golpe brutal do levantamento fascista: sofreu-no, de feito, nas próprias carnes, e conheceu a clandestinidade, o cárcere, a tortura e o exílio, e sobreviviu à repressom apenas gracas à enorme influencia da sua família. Mas isto nom o levou a renunciar das suas ideias nem do seu projecto vital militante. Muito polo contrário, fortaleceu-no e radicalizou-no. Mentres Vicente Risco, Álvaro das Casas ou Álvaro Cunqueiro aderiam o fascismo para salvar o pelejo, José Velo Mosqueira foi um dos únicos nacionalistas em aderir a luita guerrilheira.

E logo chegou o DRIL, o Directório Revolucionário Ibérico de Libertacom. A primeira organizacom armada que defendeu a causa nacional galega e que, com o sequestro do Santa Maria, a pujo na cena política internacional. Impulsionada, é certo, por um José Velo que renunciou ao independentismo primando a luita antifascista, e aderindo, desde o exílio latino-americano, o federalismo clássico de Castelao e o nacionalismo maioritário. Mas sem esquecer por um instante a causa da libertacom nacional.

Junto a galegos, portugueses e outros revolucionários do estado, Velo empunhou as armas contra Franco e Salazar, mas também contra a esquerda covarde e reformista que clamava pola "reconciliacom nacional", e contra o galeguismo vergonhento que renunciava à luita política e se refugiava no culturalismo e na claudicacom. Quantas vezes a luita tem de ser travada nom só para golpear o inimigo, mas também para desemascarar a quem agacha detrás da literatura o seu medo e a sua incapacidade, e quando digo "literatura" refiro-me também à literatura política, SI, aos panfletos e às consignas incendiárias que pretendem substituir com adjectivos a accom que nom há, e que nom se quer que haja. QUANTAS VEZES, companheiras e companheiros, A ACÇOM DIRECTA NOM Só SERVE PARA BATER NO INIMIGO, MAS TAMBÉM NAS NOSSAS PRóPRIAS CONSCIÊNCIAS E NOS NOSSOS PRóPRIOS MEDOS, ENSINANDO COM FACTOS QUE A POSSIBILIDADE DE LUITAR É REAL. E dizemos isto hoje, a dous dias de que em Vigo, mocos e mocas cargados de valor e dignidade nos tenham ensinado a todas e todos como é que se deve responder às campanhas de recrutamento do exército espanhol!!

O DRIL nom só foi umha iniciativa valiosa polo que tivo de genuína, de heterodoxa e de original. Foi sobretodo, na altura de 1960, a primeira organizacom que na Europa mostrava o caminho a seguir para enfrentar os Estados capitalistas modernos dumha óptica revolucionára e de libertacom nacional. Esta iniciativa pioneira, ideada e dirigida politicamente por um galego, adiantou e demonstrou na prática o papel pedagógico fundamental que a luita decidida desenvolve independentemente dos seus resultados imediatos:

"Aquelas explosons -dixo Velo- eram salvas de palmas para que os nossos povos, ao ver como era burlado o terrorífico aparelho repressivo, cobrassem confianca".

É possível que o próprio José Velo nom for completamente consciente da importáncia e da repercussom que na história política do último terco do século XX tivérom as suas conceicons e o seu exemplo. Após o desenlace do sequestro do Santa Maria, o DRIL foi dissolto, e Velo ficou politicamente só, no exílio brasileiro, aproveitando a rádio e diferentes iniciativas editoriais para seguir trabalhando, na medida das suas possibilidades e das suas circunstáncias, polo que sempre trabalhou. Morreu longe da Terra em 1972. Nom o fijo como um fracassado. Com a sua actividade incansável e o seu compromisso de toda umha vida, conquistou algo de valor incalculável para a causa da revolucom galega: um lugar exemplar na história do combate e da dignidade colectiva do nosso povo. Um referente incontestável de luita e de compromisso, cujo poder de atraccom e de motivacom sigue surgindo efecto aqui, na sua vila natal, entre a mocidade independentista galega, 30 anos depois. ESTE ACTO DE HOJE NOM É UM FUNERAL LAICO A UM HOME DO PASSADO: E O ENÉSIMO ACTO REVOLUCIONÁRIO INSPIRADO POR JOSÉ VELO MOSQUEIRA.

A luita dum combatente nom caduca enquanto nom caducarem as causas que a motivárom. Por cem vezes repetido, aquele conhecido refrám que di que "a morte dum revolucionário nom se chora" senom que se "colhe o seu fusil e o seu exemplo", nom deixa de perder vigencia. O Dia da Galiza Combatente tem de servir, por suposto, para homenagear e revivir o exemplo da luita de Lola Castro e de José Vilar, mas também para resgatar do esquecimento compromissos e trajectórias como as de José Velo. Hoje que desde a mocidade independentista temos que enfrentar o veneno sociológico do consumismo, do individualismo, da falta de consciencia social, da alienacom nacional mais absoluta, ou no melhor dos casos, militáncias a médias, compromissos fugazes e consciencias passageiras, o guieiro ético e prático, moral e político que represente a luita de toda umha de vida de José Velo, resulta mais imprescindível que nunca.

Remato, companheiras e companheiras, lendo palavras pronunciadas polo nosso homem como responsável político do sequestro do Santa Maria, rebaptizado polo comando revolucionário como Santa Liberdade. A sua actualidade é pasmosa; a sua forca conmovedora. Som estas:

"Mas, que foi do Alexandre, de Ángelo Casal, de Vítor Casas...? que foi de Castelao...? Será que lhes tocou a morte podre...? Afinal, que foi do galeguismo?

Em certas artes, o abstraccionismo ainda é válido, mas em política, em patriotismo, nem sequer é decorativo, também apodreceu a galeguidade?. Nom.

Os sonhos de justica que moverom a vontade de aqueles mártires estám a ponto de serem realizados. Ainda a gente da Galiza emigra. Ainda é esmagada a nossa língua, a nossa cultura e a nossa capacidade de autodeterminacom. Ainda governa Cláudio, ainda Soyano priva... Será que já a Galiza é ceive? Será que nom ficam filhos e filhas capazes de agasalhá-la? Nom.

Ainda há reservas de honestidade, de decisom, de capacidade de accom fáustica. Ainda nos emociona Rosalia, nos comove Pondal, nos arrebata Curros. A mátria galega ainda nom tem pátria. Todos os bons e generosos de pé!"

Companheiras e companheiros: VIVA A GALIZA COMBATENTE!"

 

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